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quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Até que a vida nos separe

Traição e fidelidade têm sido assuntos recorrentes entre eu e meus amigos, e numa dessas conversas, um deles mandou: “se um dia eu trair a minha namorada, ninguém vai ficar sabendo, nem vocês, porque eu não namoro uma idiota e ela não vai se passar por tonta na frente de ninguém”.

Em outra conversa, a história era a seguinte: a garota foi passar uns dias com a família numa cidadezinha do interior. O namorado, que estava trabalhando, chegaria dias depois. Aconteceu de ela ir em uma festa e ficar com um rapaz um dia antes da chegada do amado. A moça tinha amigos na cidade, que viram tudo. Ele, o namorado traído, não conhecia ninguém por lá. Poderia ficar por isso mesmo: foi um lapso, ele nunca saberia. Mas antes que ele entrasse no ônibus para ir vê-la, ela ligou e falou para ele não ir. Contou tudo, porque não queria que ele fizesse o papel do corno na frente dos amigos. Terminaram e ela chorou por três dias.

De todas as conversas que tenho tido com esses meus amigos, sempre chegamos à mesma conclusão: é difícil ser fiel.

E isso não é só opinião nossa, não. A revista VIP desse mês traz uma pesquisa que aponta: 73% dos homens e 64% das mulheres admitem já ter traído pelo menos uma vez na vida.

Eu acho que em um mundo onde a maior parte das pessoas assume a traição, o que realmente importa é a forma como ela se dá. Se foi apenas um deslize, pode ser perdoado. E pode também ficar guardada, caso não prejudique a imagem e os sentimentos da pessoa traída. Eu já falei disso em outro post. Para mim o limite entre a traição aceitável e aquela que pode pôr fim a um relacionamento é a lealdade.

Na matéria da revista VIP, algumas pessoas disseram que a traição ajuda a manter o relacionamento: busca-se fora de casa o que já não se tem lá dentro.

Eu não sei se é minha forma intensa de ver as coisas, ou se eu ainda vivi muito pouco, mas para mim, buscar em outras pessoas o que não se encontra naquela que está ao nosso lado é covardia.

É medo de terminar de vez, e buscar tudo novo, e viver coisas novas por completo: manter o que já se tem é mais fácil. E mais cômodo.

E isso, quando vira um hábito, foge daquilo que, na minha concepção de relacionamento, é o correto: namoro é parceria, companheirismo, os dois juntos. Quando um dos dois foge do compasso, por que continuar?

A pessoa que está ao meu lado pode ter mil motivos que me prendam a ela, mas se eu tiver um motivo para buscar algo em outro alguém, a coisa desandou.

Penso ainda que esse “buscar em outro alguém o que não tenho com meu parceiro” acontece porque, além de não sabermos lidar com fidelidade, também não sabemos lidar com uma outra coisinha um tanto dolorosa: o fato de que relacionamentos, às vezes, têm prazo de validade.

A gente ainda tem mania do “para sempre”, e por isso vai aceitando o mais ou menos. Às vezes, aceita traição. Muitas vezes, aceita incompletude.

Eu concordo com os amigos citados lá em cima: o mais importante é preservar a pessoa que está ao meu lado. Quando isso já não faz mais diferença, quando eu traio sem me preocupar com o outro, quando vira rotina, quando os amigos sabem e ele não, tem alguma coisa errada. É sinal de que alguma coisa entre nós se perdeu. E por mais que ele não fique sabendo dos meus erros, quem não está sabendo que as coisas já acabaram provavelmente sou eu.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

É, mas tem que surpreender...


Há tempos venho notando o quanto eu me apego a coisas muito sutis para me apaixonar, me encantar ou mesmo ficar com vontade de alguém. Essas tais pequenas coisas são as mesmas que despertam um desejo muito louco de ser amiga de uma pessoa: pode ser até o jeito descontraído que ela contou uma história triste. Mas é que não se torna amigo por pouco, mas é por muito pouco que às vezes nos envolvemos com as pessoas. Ele é bonito e inteligente, tudo bem, mas é aquela beleza e inteligência óbvias desde que você olhou pra ele. Ela é meio piradona, descontraída. Aham, mas é piradona e descontraída até demais, em horas impróprias. Eu gosto é de gente que é muita gente, gente que surpreende o tempo todo e que você não cansa de descobrir coisa nova. Faz um tempo que ninguém me surpreende, e eu confesso a vocês que nem mantenho minha expectativa assim tão alta. Às vezes, um comentário outro faz a gente se enganar e dizer: tai, esse é diferente. Mas nem é. Olho em volta de mim, quanta gente surpreendente eu conheço e que bom que são meus amigos. V. é tímida que dói, fica vermelha cada cinco minutos, mas com um bom papo você suga dela os comentários mais maliciosos possíveis, sem contar que, no fundo, é uma latinista que faz contas super bem. A. é retraído, meio gênio humanista que se isola do mundo, mas esconde dentro dele a pessoa mais solidária e generosa que eu conheço, capaz de ajudar qualquer pessoa, o tempo todo. E bebe, e nem filosofa tanto assim alcoolizado. C. é o tipo gostosa, quem a vê na mesa romana da academia não acredita que ela chega em casa e coloca os dedos pra funcionar no pc escrevendo as coisas mais legais que eu leio por aí. E o moço que ela conhece? Diz que joga basquete profissionalmente e sabe tudo de cinema. Quisera eu que as pessoas que eu conhecesse agora seguissem esse padrão, mas não. As pessoas andam sendo exatamente aquilo que elas aparentam ser, sem dubiedade, sem ambivalência, sem paradoxos. Sem surpresas. Não to falando que eu espero flores numa tarde chuvosa de trabalho, nem esses clichês conhecidos que a gente, no fundo, gosta e se surpreende. Eu to falando do moço antipático da festa, mas que cuidou de todas as suas amigas bêbadas. Do nerd que toma sempre um porre comigo, falando de American Pie. Do loucão que chora em comédia romântica e confessa que ama musicais. Do solteiro convicto capaz de fofuras, e de admitir que às vezes gosta (ainda que mais do que queria). Do engenheiro que te recomendou o melhor filme da sua vida. Do tipão que odeia vida acadêmica, mas adora poesia. Essas pessoas existem, mas parece que cada vez menos. Ainda mais na academia (não a de malhar, a intelectual mesmo) onde as pessoas assumem que são especialistas em uma área e não podem, portanto, perder a pose. Ou que são engenheiros e não podem fugir do esteriótipo e, quando acham que fogem, é porque fumam maconha e escutam Los Hermanos. Ser mais de um é mais que isso. E que mundo chato é esse que tem uma cara só e que nunca assusta a gente quando a gente vai mais fundo...

quinta-feira, 24 de março de 2011

Traição pega pelas pernas

Hoje no ônibus uma mulher reclamava que não existe homem fiel. Mas, minha cara, fidelidade é algo muito mais complexo do que cumprir promessas, fiquei a pensar. A gente idealiza, e não vive. Digo com palavras de quem já esteve em ambas posições: de corneada e corneadora, se é assim que dizem. Penso eu que o que vale mesmo é lealdade. Mas como sobre isso já falei, me resta pedir desculpas: pela ausência e pelo retorno com texto antigo. O texto que vem a seguir estava empoeirado em outro blog. Acho que vem ao caso.

Traição pega pelas pernas, joga no chão, puxa o cabelo, faz o que quer, com quem desejar. Traição desatina, desconversa, dá salto, passo, pressa. Traição enlouquece.
Abre a janela, acende dois cigarros, três, insônia. Coloca uma música um pouco mais alta pra não ouvir suas besteiras, olha de canto para evitar o espelho, lê poesia, conto, carta, placa.
Traição mostra o sol, o céu, a noite, sonha na madrugada. Acorda aflita, precisa, insone, liga tv, passos nas ruas, um cigarro, mais um. Traição, pecado não.
Paixão traição. Lágrimas, amor.


***

E traição é pecado? Depende. Depende do que você considera traição, depende de como tudo aconteceu. Mas depende, principalmente, do contrato que vocês estabeleceram, verbalmente ou em silêncio. Todo relacionamento tem um contrato. Alguns já combinam de cara: somos um do outro e ninguém mais tasca. Outros deixam as coisas no ar: uma demonstração de ciúmes aqui, uma ceninha ali; e daí, quando percebem, estão ali aquelas restrições que parecem existir desde o início.

Se houve contrato muito bem compreendido e assinado por ambas as partes, traição é pecado sim. É pecado por não respeitar aquilo que foi combinado, e é pecado mesmo por fazer o outro sofrer. Mas para todo pecado há perdão, e se somos feitos de carne e osso, temos que aceitar que os outros também são.

Existe uma porção de ditados que combinam com traição. Alguns servem até para justificar a danada. Não é fato que a ocasião faz o ladrão? Pois quem é que resistiria se, numa noite de chuva, ficasse preso no elevador com aquela vizinha gostosona que vive dando mole? Ou com aquele bonitão, todo gentil, do andar de baixo.

Eu digo que traição de ocasião (podemos chamar assim?) não é pecado. E se for, merece perdão, porque se condenarmos estes casos, condenaremos também a luxúria. E sobre ela, já há um consenso aqui: é de todos o pecado mais comum, aquele que todo mundo tem, assumido ou não.

Podemos considerar também que, para ser traição, é porque foi maldoso e fez mal a alguém. Fosse diferente, não levaria esse nome. Seria um caso perdoado, um deslize, qualquer coisa. Mas aconteceu de virar consenso: caso, deslize, até olhadinha torta ou conversa mal intencionada leva nome de traição. Então, é muito importante não complicar: olhar para o lado todo mundo olha, e nisso não há pecado algum. Falamos aqui de traição com gosto, coisa de gente grande: pegar na mão, olhar nos olhos, beijar na boca e querer mais.

E é ai que mora o problema: no querer mais. Aconteceu uma vez, não deu pra segurar e arrependeu: deslize. Quer fazer de novo, mas não quer que ninguém saiba: mentira, enganação. TRAIÇÃO. Você tem certeza de que o outro, aquele com quem você tem o contrato, não vai aceitar de jeito nenhum. Ainda assim, você quer. Desejos existem, eu sei. Mas machucar uma pessoa, isso sim é um pecado. É aí que fica o lado feio da traição. A saída, nesse caso, não é simples. Exige coragem, mas resulta em respeito.

Pra não haver mal entendidos e fins trágicos, certo mesmo é deixar tudo claro, desde o início. E entender que somos todos humanos: carne, osso, sangue e tesão. Muito tesão.


*A parte poética lá de cima é obra da Keissy ;)

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Outras mulheres

O amor é uma grande invenção. As mocinhas de saia rodada acreditam de joelhos nas luzes que invadem o grande palco da encenação, as senhoras já casadas esboçam um sorriso saudosista dos tempos em que sonhavam com a grande invenção ao que após trinta anos chamam de companheirismo.
Uma pitada de charme, três colheres rasas de provocações, quatro colheres bem cheias de bom humor e inteligência a gosto. As mulheres exatas ponderam as fórmulas da invenção, é melhor não ligar no dia seguinte, calcinha vermelha no sábado, como se a solidão fizesse sentido na segunda-feira.
Outras, porém, desnudam-se peça a peça diante da grande invenção. Os olhos desvendam o mistério do primeiro ato sem cautelas. As mocinhas de joelhos não se atrevem encarar a invenção, as senhoras já com as vistas cansadas não reconhecem do amor nem a silhueta.
Seguem com um sorriso e brincam até o final do primeiro ato, essas outras mulheres. Saltam de lá para cá, logo tiram os sapatos, sentam à mesa e tiram a invenção para rodar. Essas outras mulheres fingem saber brincar só pelo prazer de inventar.



quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Os meus homens

Eu não sei ser amiga de ex-namorado. Estabeleço com eles uma relação que vai além da amizade, de qualquer tipo de relacionamento que se pode manter ao longo dos anos, e simplesmente não consigo depois de tudo ser amiga de alguém que compartilhou comigo sonhos, segredos, dividiu comida, pensou em nome de filho, passou uma tarde na cama, cuidou de mim enquanto estava doente, passou noites em claro comigo, me viu pelada, me comeu. Claro que consigo estabelecer amizades com pessoas que já me viram em situações dessas, mas não, jamais, nunca com alguém que me viu em todas essas situações diversas vezes, e sempre com amor e lascívia, sempre com um pouco de dor às vezes. Os homens que escolho para ser meus namorados não poderiam ser pra mim outra coisa senão isso - por mais que no início eles não saibam, mas pra mim eles são sempre homens que um dia vão ser meu namorado (mesmo que nunca de verdade cheguem a ser). Eu não namoraria um homem que é meu amigo, embora possa fazer sexo, embora possa ter um caso, mas é meu amigo. Meus namorados foram também meus amigos, mas foram mais que isso,e não que para mim namoro seja um tipo de relação mais importante que amizade. Não. Mas é uma relação que me suga, que me faz gastar energias, lágrimas e todos os sorrisos e fazer planos, sonhar, e eu não posso depois disso tudo aceitar uma mesa de bar, uma festa, um cumprimento qualquer, com aquele que foi o homem da minha vida. Depois de tudo, costumo dividir os meus ex-namorados em dois grupos: os que me fazem sentir ódio, apenas ódio; e os que serão para sempre os homens da minha vida. Por mais que não exista mais tesão, mais carinho, mais respeito, por mais que não sobre mais porra nenhuma, eles vão ser para sempre homens da minha vida. Aquele rosto, aquele corpo e aquela voz vão pra sempre representar o homem que foi um dia o homem da minha vida, que a primeira vez que me falou 'oi qual seu nome' ou 'essa carteira é sua' ou 'você bebe cerveja', eu pensei: é ele. E eu nunca poderei um dia passar ao lado desse homem na rua, dar um beijo no rosto e dizer: 'oi, tudo bem?' e ouvir só amenidades.

Talvez vocês me digam que eu não sei amar, que eu idealizo demais, que preciso de psicanálise. Talvez.

Do blog da @ohmaria, algo mais sobre isso.


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E esse post partiu de uma conversa com o @veridicool, depois de ler esse texto aqui.